Tem comidas que a gente prova uma vez e esquece. E tem comidas que ficam guardadas junto com uma pessoa, um lugar, uma época da vida.
Para mim, o fígado bovino cru — conhecido em coreano como saenggan (생간) — é do segundo tipo.
Sei que a ideia pode parecer estranha. Comer fígado cru não é algo comum no Brasil, e muitos brasileiros provavelmente nunca viram esse prato em um restaurante. Talvez nem queiram ver. Mas, para mim, ele não é só uma comida diferente ou exótica. É um sabor que me leva direto para a infância e para as lembranças do meu avô.
Uma lembrança de quando eu tinha cinco anos
Comecei a comer fígado cru quando era muito pequeno, por volta dos cinco anos de idade.
Meu avô costumava me levar pela mão ao setor de carnes de uma loja de departamentos. Era um passeio simples, mas que se tornou uma tradição especial entre nós. Muitas sextas-feiras, nós íamos juntos comprar fígado cru para comer.
Naquela época, eu não pensava no prato como algo exótico, diferente ou difícil de explicar para outras pessoas. Para mim, era apenas uma comida que eu gostava de comer com meu avô.
Hoje, quando volto à Coreia e encontro fígado cru em algum restaurante, a primeira coisa que sinto não é apenas o sabor. Eu lembro imediatamente do meu avô, das caminhadas de mãos dadas e da expectativa de chegar ao balcão de carnes.
Existem comidas que ficam na memória porque são deliciosas. Outras ficam porque estão ligadas a alguém importante. Para mim, o fígado cru é as duas coisas ao mesmo tempo.
Como é o sabor do fígado cru?
Muitas pessoas imaginam que o sabor seja muito forte, mas a experiência depende bastante da qualidade, da frescura e do molho usado.
Para mim, o mais marcante é a textura. O fígado tem uma consistência macia, mas ao mesmo tempo firme e fresca. Não é igual a carne grelhada e também não tem a mesma textura de outros pratos de carne crua.
O molho costuma ser surpreendentemente simples: alho amassado, sal e óleo de gergelim.
Essa combinação é uma das coisas que tornam o prato tão especial para mim. O alho traz sabor, o sal realça o ingrediente e o óleo de gergelim deixa tudo mais aromático. Não são necessários muitos temperos, porque a ideia é sentir o sabor e a textura do fígado.
Até hoje, quando experimento fígado cru na Coreia, ainda procuro aquele sabor que lembro da infância. E, sendo sincero, ainda não encontrei outro que tenha exatamente o mesmo gosto daquele tempo com meu avô.
Por que esse prato surpreende tantas pessoas?
O fígado cru coreano é um daqueles pratos que dividem opiniões.
Algumas pessoas gostam muito desde a primeira vez. Outras não conseguem provar, principalmente por causa da ideia de comer um ingrediente cru. Isso é totalmente compreensível.
Quando amigos brasileiros visitam a Coreia, percebo que a reação costuma ser parecida com a que acontece com sannakji, o famoso polvo vivo coreano. Alguns ficam muito curiosos e querem experimentar. Outros preferem observar de longe.
A culinária coreana tem muitos sabores familiares para brasileiros, como churrasco, frango frito, arroz e sopas. Mas também tem pratos que exigem mais curiosidade. O fígado cru é um deles.
Eu não acredito que todos precisam gostar desse prato. Porém, para quem gosta de experimentar comidas diferentes e quer conhecer um lado mais tradicional da cultura gastronômica coreana, ele pode ser uma experiência interessante.
Do balcão de carnes aos restaurantes coreanos
Quando eu era criança, lembro de comer fígado cru comprado no setor de carnes de uma loja de departamentos. Era um costume simples, ligado à rotina da minha família.
Hoje, a forma de encontrar esse prato mudou um pouco. Em vez de procurar em lojas de departamento, é mais comum encontrá-lo em restaurantes especializados em carne bovina coreana ou em alguns restaurantes de gopchang, conhecidos por servir pratos feitos com miúdos bovinos.
Em alguns lugares, o fígado cru aparece como um acompanhamento ou uma cortesia servida junto com o pedido principal. Nem sempre é o destaque do cardápio, mas para quem conhece e gosta, pode ser uma das partes mais especiais da refeição.
É curioso perceber como um prato que parece tão diferente para um visitante pode ser, para outra pessoa, uma memória familiar.
Uma comida que combina com conversa e soju
Para muitos adultos coreanos, pratos de carne e miúdos também fazem parte da cultura de acompanhar a refeição com uma dose de soju.
O fígado cru pode aparecer em uma mesa com amigos ou familiares, especialmente em restaurantes de carne bovina e gopchang. É uma comida que combina com conversa, com uma refeição demorada e com a experiência de compartilhar vários pratos na mesa.
No meu caso, porém, a lembrança mais forte não é de uma noite em um restaurante. É a lembrança simples de ir com meu avô à loja de departamentos em uma sexta-feira.
Isso mostra como a comida coreana não é apenas sobre ingredientes ou receitas. Muitas vezes, ela também guarda histórias de família.
É fácil encontrar fígado cru no Brasil?
No Brasil, fígado bovino é conhecido e aparece em pratos cozidos ou grelhados. Mas a versão crua, servida como acompanhamento em restaurantes coreanos, não é comum.
Por isso, para muitos brasileiros, provar saenggan na Coreia pode ser uma experiência completamente nova. Não é um prato que eu indicaria como a primeira comida coreana para todos, mas pode ser interessante para quem já gosta de carne, frutos do mar e experiências gastronômicas diferentes.
Se você estiver viajando pela Coreia e vir esse prato em um restaurante especializado em carne bovina ou gopchang, talvez seja uma oportunidade de conhecer uma parte menos conhecida da culinária coreana.
Um aviso importante
Por ser um alimento cru, o fígado bovino exige cuidado. Este artigo compartilha uma experiência cultural e pessoal, não uma recomendação de consumo.
Pessoas gestantes, crianças, idosos e pessoas com imunidade baixa devem evitar alimentos crus de origem animal. Se você decidir experimentar, procure um estabelecimento confiável e não trate essa experiência como uma competição.
O mais importante é respeitar os próprios limites. Não gostar de fígado cru não significa gostar menos de comida coreana.
Conclusão
O fígado cru coreano é um prato que pode surpreender, dividir opiniões e até causar estranheza. Mas, para mim, ele tem um significado muito maior do que isso.
Ele me lembra meu avô, as sextas-feiras em que caminhávamos juntos até o setor de carnes e um sabor que ainda procuro quando volto à Coreia.
Talvez muitos brasileiros nunca tenham vontade de provar. E tudo bem. Mas, para quem tiver curiosidade, o saenggan mostra que a culinária coreana também pode ser feita de memórias simples, tradições familiares e sabores que ficam com a gente por muitos anos.